Nos três momentos em que abriu o Debate Geral da Assembleia-Geral da ONU como presidente do Brasil — 2003, 2009 e 2025 — Lula transformou a tribuna de Nova York em projeto político de longo curso. Em 2003, no calor da invasão do Iraque e da explosão no escritório da ONU em Bagdá que matou Sérgio Vieira de Mello, ele apresentou um léxico moral para a política externa brasileira: paz com multilateralismo, economia com justiça e a fome como escândalo imediato. O tributo a Sérgio e a ênfase na legalidade internacional vieram junto com a convocação de uma aliança global contra a fome e a pobreza, conectando o “Fome Zero” doméstico a uma pauta universal. A mensagem era clara: o Brasil queria pesar no mundo não pela força, mas pela autoridade de quem articula direitos, comércio justo e desenvolvimento com inclusão.
Seis anos depois, já no segundo mandato, Lula voltou ao púlpito no epicentro da crise financeira internacional e da paralisia das negociações climáticas e comerciais. O discurso de 2009 organizou a agenda em “três perigos” que rondavam o planeta — a crise econômica, o impasse climático e o protecionismo — e insistiu que a saída passava por governança global efetiva, com ONU e G20 funcionando, e por um comércio menos assimétrico (Doha) capaz de financiar transições e proteção social. Era a reafirmação de um Sul global propositivo: ampliar voz, reformar instituições, travar desmatamento e recolocar a dignidade no centro da economia política internacional.
Em 2025, no seu terceiro mandato, a costura se fecha e ganha um tom existencial. Lula abre a 80ª sessão com dois recados de princípio — “democracia e soberania são inegociáveis” — e recoloca o multilateralismo no tabuleiro ao denunciar sanções unilaterais, a paralisia do Conselho de Segurança e o horror humanitário em Gaza. Ao mesmo tempo, retoma o fio que o acompanha desde 2003: “a única guerra de que todos podem sair vencedores é a guerra contra a fome e a pobreza”, associando segurança alimentar, transição ecológica justa e reforma da governança global. O Brasil volta a se apresentar como construtor de pontes e de agendas, mais do que como parte de blocos de confronto.
Olhados em sequência, os três discursos não são fotografias isoladas, mas capítulos de uma mesma tese: o país médio, plural e democrático pode reorganizar a conversa mundial se falar a partir de valores verificáveis — combate à fome, paz com direito internacional, clima com justiça — e se estiver disposto a fazer em casa o que pede ao mundo. Em 2003, Lula inaugura o repertório moral; em 2009, escala esse repertório para a gramática da crise sistêmica; em 2025, transforma-o em cláusula de sobrevivência da democracia e do próprio multilateralismo, quando o veto, as guerras e as punições extraterritoriais corroem consensos mínimos. Essa coerência — ética, programática e diplomática — é o que o torna um “fenômeno necessário”: necessário à democracia brasileira, por recolocar direitos sociais como medida de vigor democrático, e necessário às relações internacionais, por reposicionar a ONU como espaço de soluções coletivas, não de legitimação de impotências.
Há estilo e método nessa trajetória. O estilo é o de quem traduz debates técnicos em objetivos humanos — “gente que come, trabalha e tem futuro” — sem abdicar de números, metas e reformas institucionais. O método é o de coalizões: aproximar do Sul ao Norte, engajar potências quando possível, tensioná-las quando preciso, e amarrar tudo à legitimidade de políticas internas (redução do desmatamento, proteção social, transição energética) para evitar o pecado da retórica vazia. É por isso que, quando Lula sobe à tribuna, não é apenas um chefe de Estado que fala; é a tentativa de reatar a política internacional com a vida concreta. Em tempos de guerra, desinformação e cinismo, essa combinação de narrativa e prática explica por que sua voz segue tendo efeito de agenda — e por que, para o Brasil e para a ONU, ela faz falta quando se cala.
Por Leonardo formentini – Assessor Parlamentar




